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História


O Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI) foi criado em 2010 e está localizado no campus de Manguinhos da Fiocruz, com previsão para ocupar um novo espaço no bairro carioca de São Cristóvão em 2018. Suas origens remontam ao Hospital de Manguinhos, criado em 1912. Ao longo de sua história, o Hospital de Manguinhos foi denominado Hospital de Doenças Tropicais, Hospital Oswaldo Cruz, Hospital Evandro Chagas, Centro de Pesquisa Clínica Hospital Evandro Chagas e Instituto de Pesquisa Clínica Evandro Chagas (Ipec).

O Hospital de Manguinhos foi construído a partir dos anseios de Oswaldo Cruz em modernizar os hospitais de isolamento da Diretoria Geral de Saúde Pública. Nesse período, inúmeras doenças faziam parte das preocupações das autoridades sanitárias do Brasil e dos pesquisadores do Instituto de Manguinhos, especialmente as grandes epidemias e endemias, urbanas e rurais. Projetado pelo arquiteto Luiz de Morais Junior e registrado pelas lentes fotográficas de Joaquim Pinto da Silva (conhecido como J. Pinto) desde o início das obras de sua construção, esse hospital criou uma tradição na pesquisa clínica.

Em contexto da efervescência científica resultante da descoberta da doença de Chagas, o decreto nº 9.346, que concedia verbas para a construção do Hospital de Manguinhos foi assinado em 24 de janeiro de 1912, por Hermes da Fonseca, presidente da República. Segundo esse decreto, as verbas destinavam-se a “promover a descoberta e aplicação do tratamento terapêutico e profilático da moléstia de Carlos Chagas”. (COC, Decreto N. 9.346, 24/01/12)

Podemos considerar que o Hospital de Manguinhos foi bem equipado de acordo com os padrões técnicos mais sofisticados da época; possuía luz elétrica, gás, telefone, sistema de ar condicionado, sala de raio X e uma lavanderia, consoante ao decreto de 1912, que também falava de um hospital “com todas as dependências e instalações apropriadas, tais como biotérios, locais para experimentação em animais, etc”. (COC, Decreto N. 9.346, 24/01/12). 

Paralelamente às pesquisas em pacientes com doença de Chagas, desde o início foram atendidos doentes com outras enfermidades, como parasitoses intestinais, malária, bouba, sífilis, leishmanioses, tuberculose, febre tifóide, pneumonia e elefantíase. Dessa forma, não é surpreendente que o primeiro registro de internação no Hospital tenha sido a de um marinheiro encaminhado para tratamento de “doença parasitária” em 1919; sabe-se que foi hospitalizado por dois meses.

Em 1925, Evandro Chagas, filho de Carlos Chagas, frequentou o Hospital de Manguinhos enquanto estudante de medicina; no ano seguinte, passou a ser o responsável pelos setores de radiologia e cardiologia. Evandro realizou inúmeras pesquisas em doença de Chagas, leishmanioses e malária, participou de congressos nacionais e internacionais, e trabalhou em colaboração com pesquisadores como seu pai, com Eurico Villela, Cecílio Romaña, Lobato Paraense, Nery Guimarães, os irmãos Deane, Maria Deane e Emmanuel Dias. Em 1936, criou o Serviço Especial de Grandes Endemias (SEGE), cuja finalidade era pesquisar e controlar doenças e insetos vetores, especialmente do Norte e Nordeste do País.

Algumas das atividades conduzidas pelo SEGE (que era em grande parte financiado pelo empresário e filantropo Guilherme Guinle) foram resultado de negociações de Evandro Chagas com a indústria química alemã Bayer, que lhe forneceu medicamentos e inseticidas, além de hamsters. Os medicamentos – para doença de Chagas – seriam usados em seres humanos, o que destacava a presença da pesquisa clínica em moldes modernos, ainda que dentro das concepções éticas do período.

Com a morte de Evandro Chagas em 1940 em um acidente aéreo na Baía de Guanabara, o Instituto Oswaldo Cruz perdeu um dos seus maiores entusiastas. O Hospital de Manguinhos recebeu em homenagem o nome de Hospital Evandro Chagas. Na década de 1950, a situação dos salários baixos dos pesquisadores era tão alarmante que um jornal dizia que a costureira que fornecia os pijamas e uniformes ganhava mais do que os médicos. Essa notícia deixa claro o momento de evasão e início de um longo período de decadência devido a um processo de deterioração da estrutura física pelo tempo e pela falta de investimentos públicos e privados. 

O ápice deste processo pelo qual passava o Instituto ocorreu em 1970 sob a administração de Oswaldo Cruz Filho, durante a ditadura militar. Neste período, encontramos poucos registros de pesquisas científicas, mas está documentada a memória da cassação de vários pesquisadores pelo regime militar e a imagem do antigo Hospital, esquecido, transformado em um depósito para a coleção entomológica.

O processo de modernização da Fundação Oswaldo Cruz teve início em 1976 na administração de Vinícius da Fonseca, contudo o Hospital Evandro Chagas só começa a receber investimentos maciços na década de 1980, em meio as diretrizes da Reforma Sanitária defendida por Sergio Arouca, presidente da Fiocruz entre 1985 e 1989.

As diretrizes da Reforma Sanitária angariaram força dentro de parte da comunidade médica brasileira e, de forma destacada, na Fiocruz. Com isso, o Hospital Evandro Chagas ressurge com uma visão sistemática reformulada sobre a pesquisa e profilaxia de doenças infecciosas e parasitárias. Foi a visão necessária à instituição em meio a um novo cenário epidêmico; visão integradora entre uma maioria de médicos infectologistas, e cardiologistas, endocrinologistas, otorrinolaringologistas, oftalmologistas, somados à presença robusta de profissionais não médicos, das áreas de psicologia, nutrição, enfermagem, farmácia, laboratório e epidemiologia.

Em 1986, a triagem do Hospital Evandro Chagas recebeu o primeiro caso de HIV/AIDS, doença que se tornou notória por atingir grupos reconhecidos pela homossexualidade, sendo até chamada de “Gay-Related Imune Deficiency” pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC). Tal concepção é posteriormente negada, mas prosseguiu como pano de fundo para as concepções etiológicas da doença em formação. Vale lembrar que os primeiros casos de AIDS no Brasil surgiram em São Paulo em 1980, mas só são reconhecidos como tal após a caracterização etiológica da doença que acaba por receber o nome de AIDS em 1982. 

Se a AIDS surgiu dentro de um contexto histórico dos países desenvolvidos em que as grandes epidemias estavam dadas como mortas em seus territórios, no Brasil ela surge em um momento de grande incandescência sociopolítica: a abertura política e o movimento democrático sendo construído. A saúde se tornou mote da corrente democrática contra a ditadura, tendo como veiculador desta essência o movimento sanitarista que estabelecia um novo paradigma na teoria médico-social para o país.

Em 1987 é realizado um convênio entre a Fiocruz e o Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (INAMPS) para a realização de pesquisas em HIV/AIDS. Em agosto do mesmo ano, o governo federal proíbe quaisquer tipos de contratação através do decreto-lei 94.667, o que afeta diretamente no aperfeiçoamento de diversos profissionais envolvidos no projeto AIDS e em outros projetos de doenças infecciosas. A interrupção de contratos fez com que houvesse uma grande evasão de profissionais do Hospital Evandro Chagas. Apesar disso, os recursos arrecadados junto ao Ministério da Saúde foram de extrema importância.

Até junho de 1988, foram injetados no HEC, através do convênio com o INAMPS, Cz$1.045.468.574, utilizados não só na pesquisa do projeto AIDS, mas também em outras pesquisas correntes, como a dengue – que se reintroduzia no Brasil – e as tradicionais doenças tropicais, como a leishmaniose, a própria doença de Chagas, as micoses profundas, além da compra de equipamentos e insumos. É possível dizer que as atividades no Hospital seriam retomadas aos poucos após a crise inflacionária que afetou todo País; na década 1990 o HEC voltou a se tornar um grande centro de pesquisas e atendimentos em doenças infecciosas com reconhecimento internacional.

Para informações sobre a história do INI/Ipec, acesse o site do grupo de pesquisa “Memória e História do Instituto de Pesquisa Clínica Evandro Chagas”: http://dgp.cnpq.br/dgp/espelhorh/9747134276088961

Por Maria Regina Cotrim

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