Setembro Amarelo: saúde mental de trabalhadores da assistência também é atravessada pelas condições de trabalho
Por: Bárbara Clara
Especialista destaca que relações, organização e condições de trabalho precisam ser consideradas na discussão sobre saúde mental e aponta a importância do cuidado coletivo
A saúde mental de quem trabalha na assistência não pode ser compreendida apenas a partir de aspectos individuais. As relações estabelecidas no cotidiano, as condições de trabalho e a forma como as atividades são organizadas também atravessam a experiência dos trabalhadores e precisam fazer parte da discussão sobre cuidado.
A avaliação é da psicóloga Mariana Bteshe, professora adjunta de Psicologia Médica e Saúde Mental da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Segundo ela, a saúde mental também é construída nas relações sociais e no cotidiano do trabalho, o que exige considerar as condições e o ambiente em que o trabalhador está inserido. A discussão foi apresentada durante a palestra “À borda do cuidado: trabalho, sofrimento e saúde mental na assistência”, realizada no dia 30 de setembro, no auditório do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz). A atividade, promovida pelo Núcleo de Saúde do Trabalhador (NUST) e pelo Serviço de Psicologia do INI/Fiocruz, integrou as atividades do Setembro Amarelo.
“A saúde mental não é algo que é só da ordem do individual ou subjetiva. Ela é coletiva, se dá na construção do laço social, no dia a dia, no cotidiano”, afirmou.
Para a especialista, esse olhar também modifica a forma de compreender o cuidado. As relações com colegas, chefias, gestores, usuários e familiares fazem parte da rotina de quem atua na assistência. Por isso, o cuidado de si não deve ser dissociado das condições em que o trabalho acontece.
“Esse cuidado de si não pode ser afastado justamente do ambiente. Caso contrário, acabamos responsabilizando o trabalhador por algo que não depende apenas dele ou de sua história”, explicou.
As características do próprio trabalho também fazem parte dessa análise. Segundo a professora, é preciso observar, por exemplo, se a pessoa atua em um CTI ou em uma enfermaria, qual público atende e se trabalha com uma população mais vulnerável. A organização do trabalho, a forma como ele é gerido e o vínculo estabelecido pelo trabalhador também são aspectos a serem considerados. “É importante pensarmos que a saúde mental do trabalhador não está associada apenas a questões individuais”, afirmou.
Nesse sentido, compreender a saúde mental no trabalho significa observar a relação entre o indivíduo e seu meio social e, no cotidiano profissional, entre o trabalhador e as condições em que exerce sua função.
Diante de situações de sofrimento psíquico, angústia ou incômodo, Mariana destacou a importância de buscar apoio no próprio cotidiano, conversando com alguém próximo ou com um colega, quando possível. Ela apontou a importância de manter espaços de lazer e realizar atividades que contribuam para o cuidado consigo. Em situações de maior sofrimento, a busca por atendimento especializado pode ser necessária.
A especialista também lembrou que existem espaços voltados ao cuidado do trabalhador. Entre eles, citou o Núcleo de Saúde do Trabalhador (NUST) e destacou a importância de conhecer esses espaços para poder acessá-los quando necessário.
Ao deslocar o olhar exclusivamente do indivíduo para as relações e as condições em que o trabalho acontece, a discussão proposta por Mariana coloca o cuidado em saúde mental também como uma questão coletiva. “Na assistência, compreender o sofrimento passa, portanto, por observar também os vínculos, a organização e as condições que fazem parte do cotidiano de trabalho”, afirmou.











