“Prospectiva é ação”: O futuro do INI não se prevê, se constrói
Por: Alexandre Magno
Janeiro é tradicionalmente o mês de traçar metas. Contudo, em uma instituição estratégica como o INI/Fiocruz, olhar para o futuro exige mais do que simples previsões: exige atitude. Recém-chegado da Warwick Business School, no Reino Unido, onde foi palestrante na conferência internacional sobre cenários futuros, o chefe de Planejamento do INI, Valdir Ermida, nos convida a entender a Prospectiva como uma ciência da ação, neste pingue-pongue que teve com a Assessoria de Comunicação do INI.
Ele explica também por que “Democracia é Saúde” continua sendo um conceito vital e como a Prospectiva serve como bússola para a gestão participativa do INI rumo ao horizonte de 2030. Uma leitura essencial para entender a estratégia por trás da ciência.
O diretor do INI, Estevão Portela, ratifica a visão e lembra do processo de planejamento que foi feito em 2018, revisto em 2023, registrando também que logo após a covid-19, o mundo esteve diante de uma nova ameaça à saúde pública que foi o reaparecimento da mpox. Ele avalia que instituições da complexidade do INI precisam estar preparadas para responder rapidamente as ameaças sanitárias representadas por microrganismos com potencial pandêmico, incluindo arboviroses, Infecções sexualmente transmissíveis e viroses respiratórias
Estevão assumiu a direção do INI em junho do ano passado, mas, está na instituição desde 2006, tendo sido vice-diretor de Atenção e Vigilância em Saúde durante a pandemia de covid-19 em 2020 e o ressurgimento do mpox em 2022.
Você esteve recentemente como palestrante principal na conferência internacional Scenario Planning and Foresight 2025, realizada na prestigiada Warwick Business School do Reino Unido. O que seria exatamente o conceito de prospectiva, é uma ciência ou é uma ferramenta?
A Prospectiva é, sobretudo, uma atitude, já lembrando o texto seminal “A Atitude Prospectiva” de Gaston Berger, considerado o pai da Prospectiva na França. Essa atitude, como o nome indica, nos convoca à ação. Se fosse possível resumi-la em uma frase, seria: “Prospectiva é ação”.
Do ponto de vista epistemológico, eu a situaria no campo da fenomenologia. Como o futuro não existe, mas está por ser construído, há uma questão ontológica que pode limitar o enquadramento da Prospectiva como ciência no sentido mais popperiano do termo, digamos assim. Não creio, porém, que a questão principal seja essa. O futurista francês Michel Godet, por exemplo, referência importante no Brasil, chama a Prospectiva de “indisciplina intelectual” (termo atribuído a Pierre Massé).
Nesse sentido, penso então que a Prospectiva pode ser melhor caracterizada como um campo do conhecimento com potentes ferramentas que efetivamente apoiam a tomada de decisões estratégicas (e que tem sido empregada em diversas organizações e governos mundo afora, há décadas).
Mais recentemente, Ian Miles e colegas fizeram um belo trabalho de sistematização desse conhecimento que se encontrava, de certa forma, disperso na literatura. Trata-se do livro “Prospectiva para Ciência, Tecnologia e Inovação”, publicado pela Editora Fiocruz em 2021, com tradução minha (a publicação original em inglês foi em 2016, pela Springer). Para quem tiver interesse, nessa obra é possível se aprofundar mais nos conceitos e métodos que embasam a Prospectiva.
Que tipo de informações e dados se utiliza para fazer uma análise prospectiva?
A análise prospectiva, entre outros aspectos, varia em função do tópico de interesse, recursos e objetivos, por exemplo. É desejável a colaboração de uma ampla gama de especialistas que possam opinar e indicar fontes confiáveis, baseadas em evidências, que apontem quais acontecimentos impactarão o futuro. No INI, nós procuramos trabalhar com uma visão o mais abragente possível, considerando as dimensões expressas pelo acrônimo STEEPV, em inglês, que dizem respeito a informações sobre aspectos sociais, tecnológicos, ambientais, econômicos, políticos e também valores relacionados ao tópico de interesse.
Qual a efetividade dessas previsões, há exemplos?
Esta é uma pergunta superimportante, pois dá oportunidade para esclarecer que a Prospectiva não faz previsões. Este é um princípio basilar. Além de ser um chamado à ação, a Prospectiva é também um processo. A todo momento há acontecimentos novos que podem impactar mais ou menos o rumo das coisas. Desse modo, há sempre a possibilidade de revisão do que foi feito. A Prospectiva, enfim, mais do que previsões, trabalha com futuros plausíveis a partir da análise dos acontecimentos atuais, os quais podem se desenvolver de uma forma ou de outra. Aqui, creio que vale citar o Godet novamente, talvez não com a mesma veemência, quando este afirma que toda forma de previsão do futuro é uma impostura.
Na sua apresentação, você mostrou que democracia é saúde. Qual exatamente a ligação de um conceito político, (filosófico, ideológico?), com o campo da saúde?
Este é o conceito que fundou o SUS. Originalmente, “democracia é saúde” foi o lema da VIII Conferência Nacional de Saúde em 1986, por ocasião da redemocratização do pais. Em sua abertura, o Sergio Arouca lançou mão desse lema para desenvolver um novo conceito de saúde, mais sofisticado, a partir da problematização do conceito da OMS. O que assistimos na fala do Arouca, naquele momento, foi na realidade uma mudança de paradigma na forma em que o conceito de saúde é abordado, ao acrescentar-lhe uma dimensão política que inclui o exercício da cidadania, a livre autodeterminação, a capacidade de transformar o futuro.
O que é democracia industrial e como ela se relaciona com o processo de planejamento do INI, como uma unidade da Fiocruz?
Existem duas formas de democracia nas organizações: Democracia Corporativa e Democracia Industrial. A primeira refere-se a empresas no mercado de capitais e diz respeito ao poder dos acionistas na tomada de decisões. A Democracia Industrial, como o nome indica, tem suas origens na Revolução Industrial e está relacionada aos sindicatos, ao movimento trabalhista. Diz respeito à participação em decisões administrativas e negociações coletivas, remetendo, dessa forma, ao exercício do poder partilhado com o “chão de fábrica”.
No caso do INI, e da Fiocruz, a Democracia Industrial adquire uma característica única, pois não é apenas uma questão de poder, mas também uma questão de saúde, entendida como exercício da cidadania, conforme postulado pelo Arouca na VIII Conferência.
O que podemos falar sobre o planejamento estratégico do INI o que há no horizonte para os próximos anos?
Tendo a Prospectiva como referência, podemos dizer que o planejamento do INI é um processo, mais do que um documento com objetivos direcionados ao cumprimento de sua missão e visão de futuro, com base nos valores do Instituto. Assim é que em 2023 foi necessário revisitar o trabalho de 2018, pois fomos surpreendidos por uma pandemia no meio do caminho, com mudanças importantes tanto no contexto externo quanto institucional.
Ambos os exercícios realizados (em 2018 com 70 participantes e em 2023 com 100 participantes) tiveram como horizonte o ano de 2030 em alinhamento com a Fiocruz, que por sua vez tem como referência os ODS da ONU. Na revisita que fizemos (2023), nos baseamos em duas incertezas críticas principais, apontadas pelos participantes: 1) Novas ameaças à Saúde Pública; e 2) Mudanças políticas.
O coletivo do INI considerou, assim, como mais plausível um horizonte caracterizado por ameças à saúde pública e pela descontinuidade de políticas públicas que podem garantir os recursos necessários para enfrentar essas ameaças.
Essa percepção acabou não apenas se concretizando, mas aconteceu ainda antes do que se poderia esperar, quando no ano seguinte, em 2024, a OMS declarou a mpox novamente uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional e, agora, pela redução de recursos destinados à Ciência e Tecnologia no orçamento aprovado para 2026, a fim de garantir o superávit primário.



















