INI participa do MedTrop 2026 com discussões sobre doenças tropicais, diagnóstico, prevenção e cuidado
Por Karina Burini | Edição Alexandre Magno
O Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz) encerrou sua participação no Congresso Brasileiro de Medicina Tropical (MedTrop2026), no dia 19 de agosto, último dia do evento, com a mediação da mesa Micoses endêmicas em pacientes imunossuprimidos. Realizado entre os dias 16 e 19 de agosto, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília (DF), o evento contou com pesquisadores, médicos, gestores e estudantes de diversas partes do Brasil em mesas, palestras, moderações e apresentações de trabalhos. A programação abordou temas como tuberculose, doença de Chagas, dengue, malária, esporotricose, paracoccidioidomicose e inovação no cuidado de doenças infecciosas. Além da programação científica, o INI participou do Medtrop com um stand onde tirava dúvidas dos participantes sobre o seu serviço de Telesaúde, voltado para médicos do Sistema Único de Saúde (SUS) e os seus cursos de pos-gradução Stricto sensu e Lato sensu.
A participação do Instituto começou no dia 16, com o ASTMH Update Course in Clinical Tropical Medicine, realizado pela Sociedade Americana de Medicina Tropical e pela Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT). O curso reuniu profissionais do Brasil, da América do Norte e da América Central para discutir doenças tropicais e abordagens clínicas, com temas como paracoccidioidomicose e dengue. As mudanças climáticas e o aumento do risco de transmissão de doenças como dengue e chikungunya em regiões onde esses agravos não eram frequentes também entraram na discussão, assim como situações relacionadas à medicina de viagem. Ainda no dia 16, como parte das atividades pré congresso, o laboratório de Pesquisa Clínica em Doença de Chagas do INI, promoveu o curso Abordagem ambulatorial e hospitalar das formas cardíacas e digestiva da doença de Chagas, no auditório da Fiocruz em Brasília, localizado no campus da Universidade de Brasília (UnB).
No dia 17, os pesquisadores do Instituto contribuíram com os debates da mesa Esporotricose humana e animal: abordagem uma só Saúde; com apresentação do tema: Esporotricose no Brasil e países vizinhos: peculiaridades e atualizações, apresentando a evolução dos casos da doença no Brasil, desde os primeiros registros no Rio de Janeiro, no fim dos anos 1990, até a ocorrência em diferentes regiões do país e em países vizinhos. A discussão relacionou o aumento dos casos à transmissão por gatos infectados e à presença do fungo Sporothrix brasiliensis. A relação entre saúde humana e animal também reforçou a necessidade de integrar as ações de acompanhamento e controle da doença. No mesmo dia, a mesa Paracoccidioidomicose: um problema de Saúde Pública no Brasil discutiu as formas graves da doença. A apresentação Formas graves – uma realidade emergente abordou a relação entre casos graves, mudanças climáticas e ambientais e alterações nas condições dos hospedeiros, incluindo o aumento da presença de pessoas imunossuprimidas. A mesa discutiu ainda a inclusão da paracoccidioidomicose na lista nacional de doenças e agravos de notificação compulsória. A medida pode ampliar a vigilância e permitir o acompanhamento dos casos, incluindo aqueles que evoluem para hospitalização e óbito.
Ainda no dia 17, a mesa Novos espécimes para o diagnóstico, biomarcadores e terapia direcionada ao hospedeiro discutiu alternativas para o diagnóstico da tuberculose. A palestra Lavado oral para diagnóstico da TB: Acurácia e potencial para detecção de TB subclínica apresentou técnica desenvolvida pelo nosso laboratório de Pesquisa Clínica em Micobacterioses (LaPClin-TB) para coleta de secreção para situações em que o paciente não consegue produzir escarro ou o serviço não dispõe de estrutura adequada para sua indução. O método apresentado utiliza 2 ml de água destilada e um pote já usado para a coleta de escarro. Após o bochecho, a amostra segue para o laboratório, onde passa por concentração e análise no GeneXpert e cultura. O método apresentou sensibilidade de 74% e pode ampliar as possibilidades de coleta quando o escarro não está disponível, sem substituir a confirmação obtida por esse material.
A programação do dia contou também com a mesa Tecnologia e inovação para salvar crianças das doenças infecciosas que contou com a participação do Laboratório de Pesquisa de Doenças Febris Agudas que discutiu ferramentas para apoiar a avaliação de pacientes e a tomada de decisão clínica. Entre as soluções apresentadas estão sistemas de leitura automatizada de lâminas e exames de fundo de olho para auxiliar na identificação de sinais de gravidade. As tecnologias podem apoiar decisões sobre internação, acompanhamento ambulatorial e encaminhamento para cuidados intensivos. As aplicações discutidas incluem malária, sepse bacteriana, infecções virais, dengue e infecções neonatais. A mesa também tratou da aplicação dessas ferramentas em diferentes sistemas de saúde.
No segundo dia do Congresso (18/08), o INI participou de painéis sobre malária, dengue e doença de Chagas. Na mesa Estratégias de prevenção, controle e eliminação da malária no DSEI Yanomami e Ye’kwana, foi apresentado o tema Desafios e perspectivas da malária na Terra Indígena Yanomami que mostrou os desafios para controlar a doença no território em decorrência da extensão da Terra Indígena Yanomami, a distribuição da população, a mobilidade das comunidades e as condições de acesso aos serviços interferem nas ações de saúde. A presença do garimpo ilegal também alterou a dinâmica do território e trouxe novos fatores para a atuação das equipes. O acesso às comunidades pode exigir aviões de pequeno porte, helicópteros, embarcações e longas caminhadas pela floresta. Apesar da redução dos casos de malária na região, o número ainda está distante do objetivo de eliminar a doença. A discussão apontou a necessidade de ampliar investimentos e adaptar as estratégias às características do território e da população.
No mesmo dia, a mesa Desenvolvimento de Tratamentos contra Dengue: Que Caminho e o que vem junto? discutiu alternativas para o tratamento da doença. A apresentação Terapias dirigidas ao hospedeiro como estratégia para reduzir o risco de evolução para dengue grave abordou as limitações das opções disponíveis e os desafios para desenvolver terapias específicas. Atualmente, a condução dos casos se baseia na avaliação do paciente, na classificação da gravidade e na hidratação. A discussão apontou os riscos de desidratação e de excesso de líquido, principalmente em grupos como gestantes e idosos. A mesa também abordou a dificuldade de diferenciar dengue, zika e chikungunya e a necessidade de ampliar o acesso a testes diagnósticos. O desenvolvimento de novos tratamentos depende de investimentos e de estudos clínicos que avaliem a segurança e os benefícios das terapias. Outro ponto discutido foi a evolução para formas graves. A segunda infecção pelo vírus da dengue pode apresentar maior risco, mas fatores como idade, gestação e obesidade também influenciam o desfecho. A preparação dos serviços e a condução dos casos durante surtos também interferem na evolução da doença.
A doença de Chagas também esteve na pauta da participação do INI em atividades sobre vigilância, assistência e controle nos territórios. A mesa Entre territórios e fronteiras invisíveis: integração da vigilância, controle e assistência na Doença de Chagas e os desafios dos fluxos interestaduais de cuidado discutiu a pesquisa de implementação como estratégia para aproximar o conhecimento científico dos serviços e das comunidades.
O projeto CUIDA Chagas foi apresentado a partir das ações realizadas com profissionais de saúde, gestores e lideranças locais. Entre as estratégias estão grupos de autocuidado, fortalecimento de lideranças e oficinas interculturais, com adaptações para diferentes populações, incluindo comunidades quilombolas, ribeirinhas e indígenas. Alias, o projeto teve ampla participação e visibilidade no Congresso com apresentação de mais de 10 trabalhos e a participação na mesa Saúde Brasil, realizada no dia 16/08. A experiência também mostrou a necessidade de descentralizar as etapas do cuidado. O uso de testes rápidos amplia a triagem, mas não garante a continuidade do atendimento. O acompanhamento identificou situações em que mulheres e crianças com resultado positivo não chegavam à confirmação diagnóstica. Em alguns territórios, esse índice chegou a 60%. As dificuldades incluem as distâncias até os serviços e os custos de deslocamento. Em áreas ribeirinhas, pacientes podem precisar pagar mais de R$ 100 pelo transporte de barco. A partir desses dados, a estratégia do Projeto passou a considerar a descentralização da coleta e do tratamento.
A formação dos profissionais também fez parte da discussão e foi uma das atuações do CUIDA Chagas apresentadas. Cursos sobre vigilância, testes rápidos e cuidado integral foram realizados por meio do Campus Fiocruz Virtual, com atividades presenciais e a distância para agentes comunitários de saúde, técnicos de enfermagem, enfermeiros e médicos. A falta de internet em algumas regiões levou à adaptação das atividades virtuais para encontros presenciais.
No último dia do MedTrop 2026, (19/08) o INI participou novamente de discussões sobre doença de Chagas e tuberculose. A mesa Atenção integral na doença de Chagas: do manejo clínico ao cuidado longitudinal reuniu as apresentações Manejo clínico da cardiopatia chagásica crônica e Reabilitação na cardiopatia chagásica. A discussão sobre manejo clínico apresentou um roteiro de avaliação dos pacientes, considerando histórico, exame físico, arritmias, insuficiência cardíaca e fenômenos tromboembólicos. Os exames complementares ajudam a classificar o risco e definir o tratamento, que pode incluir medicamentos, mudanças de hábitos, reabilitação cardíaca e procedimentos especializados, como implante de cardiodesfibrilador, terapia de ressincronização e transplante.
A reabilitação cardíaca também foi discutida como parte do cuidado. Estudos realizados no INI/Fiocruz apontam que exercícios indicados e supervisionados podem melhorar a capacidade funcional e a qualidade de vida. A experiência da instituição reúne cerca de 800 pacientes, aproximadamente metade com cardiopatia e cerca de 10% com formas mais graves.
Participamos ainda da mesa Tuberculose na Vida Real: decisões clínicas diante de casos desafiadores no congresso. A atividade discutiu situações encontradas na rotina dos serviços e as decisões necessárias para conduzir casos de tuberculose.
Em formato interativo, a sessão apresentou casos para discussão e abordou dificuldades relacionadas ao diagnóstico e à definição de condutas. A atividade também reforçou a necessidade de atenção às micobactérias relacionadas à tuberculose e de estratégias que aproximem a discussão científica dos desafios encontrados no atendimento.
A participação do INI/Fiocruz no MedTrop 2026 reuniu diferentes frentes de atuação em doenças tropicais, com discussões sobre prevenção, diagnóstico, tratamento, vigilância, inovação, formação profissional e organização dos serviços. As atividades também mostraram a necessidade de adaptar estratégias às condições de cada território e aproximar a produção científica das demandas encontradas no cuidado em saúde.
Para conhecer a programação completa do Medtrop2026 e a participação do INI no evento, clique aqui.
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